11.11.09


Começou com um café. Meus olhos passeavam pela confeitaria, observadores, acompanhando discretamente cada minúcia que escapava despercebida entre as inúmeras conversas. As palavras flutuavam no ar e eu, bisbilhoteira, tentava unir os trechos entrecortados que chegavam aos meus ouvidos. Uma neta contando ao seu avô histórias de sua viagem à Espanha, duas amigas relatando suas últimas peripécias românticas e um trio de senhoras, em um ti-ti-ti cochichado, certamente fofocando da vida alheia.

Conversas comuns, de um cotidiano simples e bonito. O cheiro doce de açúcar e café no ar, tons de voz e trejeitos daquelas pessoas tão cheios de peculiaridades, a música que tocava ao fundo, a voz de Chico, com açúcar e com afeto. Eu já me perdia em um clima de nostalgia, assistindo o fumaçar do meu café, quando o vi sentado numa mesa de canto, ao lado da janela.

Percebi que seus olhos eram castanhos, cor de chocolate, embora a lente espessa de seus óculos lhes roubassem parte do brilho. Com um livro sobre a mesa, coçava a cabeça com a mão esquerda, claramente intrigado. Não sei quanto tempo fiquei ali, assistindo a sucessão de gestos e expressões que denunciavam tão ingenuamente as emoções daquele moço. O gole de café me desceu frio e me fez perceber que estava atrasada para o trabalho.

Deixei o dinheiro do café sobre o balcão e saí. Não percebi que deixara algo mais naquela confeitaria.

5.11.09

amanhecer;

Eu podia sentir o calor da tua mão enquanto tu brincavas com os meus dedos pequenos. Sentia o movimento do teu indicador arrodeando a palma de minha mão. Meu coração pulsava nos ouvidos e o meu estômago revirava como se centenas de borboletas arfassem cá dentro. Era a sensação mais familiar de quando tu estavas ao meu lado.

Eu queria dizer-te que sentia muito, que a culpa que joguei sobre ti era metade minha. Eu não percebia a tua insegurança e agora vejo que talvez fosse maior do que imaginara. Eu sou uma moça difícil, eu sei. Meu gênio não é dos melhores e minha impaciência inquieta por demais. Também sei que meus olhos ardiam toda a tensão que eu lutava para enclausurar longe das tuas vistas. Mas tu sempre foste tão observador e minhas tentativas seriam sempre vãs.

Eu queria dizer-te tudo isso. Mas algo dentro de mim calou-me a voz e cessou todo o ímpeto que eu tinha de lhe falar. Não era necessário. Tu estavas ali e não condenava nada do que eu havia feito. Nem sequer cobrara qualquer explicação minha, descartando também a necessidade das tuas. Tudo estava resolvido naquele silêncio que sempre soube falar melhor que nós dois.

E eu apenas sentia o teu cheiro que não sei nomear de tão teu. Recostei minha cabeça no teu peito, enquando suspirava forte de alívio pelo teu afagar nos meus cabelos. Toda a dor e melancolia evaporaram naquele momento, como se o tempo tivesse parado e nunca passado sem a tua presença aqui. O teu calor junto ao meu corpo era o anúncio de que a longa noite de um inverno dolorido chegara ao fim.

O Amor estava ao meu lado. O sol havia amanhecido dentro do meu coração.

3.11.09

(re)volta;

Mais uma madrugada. Meus olhos abertos, novamente. Os sonhos estranhos do último mês voltaram. E com eles a minha insônia e toda a confusão que havia ficado para trás. As memórias que reconheço como reais. As lembranças que não existiram, mas que exibem-se tão nítidas quanto as de verdade.

Diálogos rompidos, emendados a lugares que nunca vi, mas que são tão familiares. Um decalque, premonição, talvez. Mas são conversas que eu não tive, abraços que eu não dei. Eu me perco nessa falta de linearidade e de conexão entre essas imagens anacrônicas que se unem em um só tempo, um só lugar. E cada dia a mais eu temo um futuro que parece estar entrelaçado com o passado que eu não quero que volte.

Por medo, eu expulsei o ontem de mim. Acabo de renunciar ao hoje, com medo do que o amanhã pode me trazer. E caminho sozinha, mais uma vez.


♪ Deixo tudo assim, que o acaso é amigo do meu coração
quando falo comigo, quando eu sei ouvir...

29.10.09

o pequeno;

Que o mundo não te leve esse sorriso.

As luzes da cidade passavam apressadas pela janela do carro, enquanto eu me perdia dentro de mim, em pensamentos que não mereciam nem um pouco da minha atenção. Tarde da noite, e os carros ainda se amontoavam nas ruas e pessoas caminhavam exaustas, aparentemente tão perdidas em si quanto eu. Parando em uma dessas esquinas, uma voz doce e infantil, porém com uma dose de súplica, entrou pela outra janela, me arrancando de minha distração.

- Moço, dá uma moeda pra eu comprar de pão?

Seu olhar triste, fatigado, não conseguia esconder uma pequena luz que ainda resistia brilhando. Embora desgostosos, seus olhos carregavam estrelas totalmente diferentes das que eu já vi. Era a própria pureza da esperança infantil, que toda a dor daquela vida ainda não conseguira roubar. O seu textinho ensaiado não percebeu que já passavam das dez da noite.

- Pão a essa hora, meu filho? - Brincou o meu pai, enquanto procurava algumas moedas no bolso. O menininho fez uma careta desconsolada, levando os dedinhos miúdos a cabeça, enquanto tentava dizer qualquer coisa que evitasse uma repreensão. São tantos os sem coração que andam por essas ruas, que o pequeno cismado não esperaria outra coisa.

- É.. pra.. É pra... - Nervoso, não conseguia construir uma frase.

- Tome, meu filho. - Sorrindo, meu pai despejou em suas pequenas mãos algumas moedas. E, mais rápido que a queda de uma estrela, um largo arco-íris se acendeu na noite escura, quando o pequeno nos sorriu. Em meio a tanta dor, a tanto abandono, eu vi brotar o mais puro e o mais bonito dos sorrisos. Foi quando eu percebi que nunca havia visto a felicidade verdadeira nos olhos de alguém.

O menininho agradeceu e saiu flutuando numa alegria que eu desconheço de tão pura. Consigo, carregava aquele sorriso que eu nunca mais vou esquecer.

  • E eu me entristeço pela realidade desse menino não ser fruto da minha imaginação;