Começou com um café. Meus olhos passeavam pela confeitaria, observadores, acompanhando discretamente cada minúcia que escapava despercebida entre as inúmeras conversas. As palavras flutuavam no ar e eu, bisbilhoteira, tentava unir os trechos entrecortados que chegavam aos meus ouvidos. Uma neta contando ao seu avô histórias de sua viagem à Espanha, duas amigas relatando suas últimas peripécias românticas e um trio de senhoras, em um ti-ti-ti cochichado, certamente fofocando da vida alheia.
Conversas comuns, de um cotidiano simples e bonito. O cheiro doce de açúcar e café no ar, tons de voz e trejeitos daquelas pessoas tão cheios de peculiaridades, a música que tocava ao fundo, a voz de Chico, com açúcar e com afeto. Eu já me perdia em um clima de nostalgia, assistindo o fumaçar do meu café, quando o vi sentado numa mesa de canto, ao lado da janela.
Percebi que seus olhos eram castanhos, cor de chocolate, embora a lente espessa de seus óculos lhes roubassem parte do brilho. Com um livro sobre a mesa, coçava a cabeça com a mão esquerda, claramente intrigado. Não sei quanto tempo fiquei ali, assistindo a sucessão de gestos e expressões que denunciavam tão ingenuamente as emoções daquele moço. O gole de café me desceu frio e me fez perceber que estava atrasada para o trabalho.
Deixei o dinheiro do café sobre o balcão e saí. Não percebi que deixara algo mais naquela confeitaria.



